08
por Fernando Mucioli
Blim, blim, blim – ou como quer que você queira que seja representado o barulho de pegar argolas douradas flutuantes, que concedem poderes sobrehumanos a mamíferos que usam tênis. E não é que a Sega foi lá e pimba?
Pimba!, porque eles fizeram mais ou menos aquilo que comentei no meu post anterior sobre Mega Man, refugos e picaretagem. Em vez de reverterem totalmente à fórmula dos tempos áureos, ele seguiram o estilo Konami de ser: mantiveram (aparentemente) a jogabilidade, os visuais e a sensação nostálgica da era Mega Drive e deram o popular tapa aumentador de definição para deixar tudo mais 2010. Sucesso garantido, então, segundo a minha própria lógica? É isso, certo?
…posso dizer que não?
Ok, na verdade eu não posso dizer que não. Se eu não sou bidu o suficiente pra prever se a comida no restaurante por kilo aqui perto da redação vai ter comida boa ou não*, como vou ser para prever a qualidade de um game que está sendo desenvolvido a pelo menos 24 horas de distância do nosso quente e molhado país?
O primeiro problema está na própria cara do judiado mascote azul. Você assistiu o trailer? Veja só o tamanho dessas pernas! Depois de quase voltar a ser o bichinho gordinho da era Mega Drive, decidiram que seriam uma boa ideia retomar a ideologia Hedgehog 2006, na qual ele mais parecia uma samambaia azul com pernas. Gamer escaldado tem medo de água fria.
Mas o que mais me preocupa é algo que li há algum tempo nas gloriosas internets – uma história sobre o Sonic Team. Longe de ser a equipe dos sonhos da década de 90, o que existe na Sega hoje é um grupo de pessoas sem inspiração, sem motivação e sem talento. Daqueles que se suaram a camisa para bater de frente com Mario, ninguém ficou. O que sobra é um grupo de pessoas concentrada em um simples trabalho mecânico: crie um conceito novo (mas não necessariamente bom), e faça qualquer coisa em cima dele. O Ouriçomem provavelmente veio daí. assim como aquele outro jogo que a câmera te mata mais do que qualquer outra coisa. Mas ei, qual o problema nisso, certo?
Chegamos, enfim, à pulga atrás da minha orelha. Seja sincero: não houve um só Sonic bom desde Adventure, aquele de 1999. E até ele tinha os seus problemas. Isso quer dizer que há mais de dez anos não existe um jogo “grande” da série que preste. Alguns são decentes – a maioria nem isso. Os portáteis começaram bem, é verdade, mas depois de vários capítulos para o GBA, PSP e DS, até essa fórmula começou a cansar. É só ver Rush Adventure e seus diálogos intermináveis com personagens que me fazem querer arrancar os olhos fora.
Antes tudo era só velocidade – e era isso que a Sega tinha para enfrentar Mario. O baixinho bigodudo da Nintendo corria, pulava e esmagava seus oponentes com certa tranquilidade. Desde o primeiro Sonic, se você ficasse cinco segundos sem fazer nada ele olhava pra você com cara feia e começava a bater o pé. O bicho brigava com você. Não é o máximo?
Só que com o tempo, essa atitude – que também era uma arma poderosa contra o reino dos encanadores – ficou boba em vez de amadurecer. A série começou a se levar a sério demais, querer ter história demais, personagens demais, drama demais. O pseudo-romance do ouriço com a moça no “Hedgehog 2006″ não me desce até hoje. Nem com Gourmet, como diria um amigo meu.
Nada do que fez Sonic divertido um dia se manteve nos jogos recentes. Nada.
Por isso mesmo eu tenho a convicção de que nada de bom, nada mesmo, possa sair daí. E por “daí” eu entendo tanto o atual Sonic Team quanto qualquer empresa que tente fazer qualquer coisa com o massacote. Nem que seja para limpar tudo para começar (quase) do zero. Com herói que corre desengonçado e que, dizem alguns, manteve o ataque-bolinha-teleguiado só para compensar o design de fases ruim. Isso eu não sei. O que eu sei é que há uma grande chance de acontecer mais uma vez o que a internet sabiamente batizou de “Sonic Cycle”, ou o “Ciclo Sonic”.
Eu obviamente posso estar enganado. Pode ser que o primeiro episódio de Sonic 4 seja um estouro de excelência e que eu me veja mordendo a língua pelos próximos anos. Mas eu não esperaria por isso. E nem você deveria esperar.
* É mentira. Eu posso prever isso e acertar em 99,3% dos casos.
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